Neste texto, Santo Afonso Maria de Ligório ensina, com simplicidade e profundidade, um modo prático de santificar todas as ações do dia, conduzindo a alma a viver em contínua união com Deus.
Desde o primeiro pensamento ao despertar até o repouso da noite, cada oração, trabalho, sofrimento e acontecimento cotidiano é apresentado como ocasião de amor, oferecimento e abandono à vontade divina.
Extraído do livro As Mais Belas Orações de Santo Afonso de Ligório, este ensinamento convida o cristão a transformar a vida inteira em oração, fazendo de cada instante um passo no caminho da santidade e da perfeita conformidade com Deus.
A oferta do dia a Deus logo ao despertar
De manhã ao despertardes, será o vosso primeiro pensamento elevar o vosso coração a Deus e oferecer-lhe tudo quanto fizerdes e sofrerdes durante o dia; pedir-lhe eis que vos ajude com a sua graça. Fazei em seguida os outros atos que todo cristão deve fazer pela manhã, atos de agradecimento e amor, súplica, bom propósito, resolução de passar esse dia como se fosse o último da vossa vida.
Seguindo o conselho do padre Saint-Jure, podereis cada manhã fazer com Deus a seguinte convenção, que a toda repetição dum certo sinal, como levar a mão ao coração, levantar os olhos para o céu, olhar o crucifixo, tereis a intenção de lhe exprimir o vosso amor, o vosso desejo de vê-lo amado de todos os homens, a oferta de vós mesma, e dos outros.
A oração e a meditação diária
Após os atos acima ditos, tendo-vos colocado no Sagrado Coração de Jesus e sob o manto de Maria, pedido ao Pai eterno vos guarde neste dia pelo amor de Jesus e Maria, procurai, logo e antes de todas as outras ações, fazer a vossa oração ou meditação ao menos durante uma meia hora.
De preferência seja o vosso gosto meditar sobre a dor e desprezo que Jesus Cristo sofreu na sua Paixão; é o assunto mais caro às almas fervorosas e que melhor do que outro qualquer as abrasa com o amor divino.
Três devoções devem, entre todas, vos ser mais do peito, se queres progredir no caminho espiritual: a devoção à Paixão de Jesus Cristo, ao Santíssimo Sacramento, e à Santíssima Virgem Maria.
Santificar o trabalho e as ocupações do dia
Quando tiverdes de vos entregar às ocupações exteriores, ao estudo, trabalho, ou outros deveres próprios do vosso estado, não vos esqueçais, no começo de cada ação, de oferecê-la a Deus, pedindo-lhe a assistência para executá-la como convém.
Numa palavra, tudo quanto fizerdes, fazei-o com Deus e para Deus.
Em saindo do vosso quarto ou casa, e entrando nesses lugares, recomendai-vos sempre à Mãe de Deus por uma Ave-Maria.
A vida cotidiana como caminho de santidade
Pondo-vos à mesa, oferecei a Deus tudo o que experimentardes de desgosto e prazer no beber e comer; e no fim da comida, dai graças, dizendo: Senhor, quantos benefícios prestais a quem tantas vezes vos tem ofendido!
Durante o dia, não vos esqueçais da vossa leitura espiritual, nem da visita ao Santíssimo Sacramento e a Maria Santíssima.
À tarde, rezai o Rosário e fazei o exame de consciência, seguido dos atos de fé, esperança, caridade, contrição, bom propósito.
Em vos deitando, pensai que devíeis estar no fogo do inferno; adormecei-vos tendo nos braços o crucifixo, e dizendo: Contando com a proteção do Senhor, dormirei e repousarei em paz (Sl 4,9).
Elevar o coração a Deus através das criaturas
A fim de que a vossa vida inteira se passe no recolhimento e união com Deus, esforçai-vos por aproveitar tudo o que vedes ou ouvis, para elevar o vosso coração a Deus ou recordar-vos às coisas da eternidade.
Vedes, por exemplo, correr um líquido, imaginai que a vossa vida se escoa da mesma sorte, e vos aproximais da morte. Vedes uma lâmpada que se extingue por falta de óleo, imaginai que a vossa vida terá de acabar um dia do mesmo modo.
Quando contemplais os campos, praias, as flores, os frutos, cuja vista ou odor vos recreiam, dizei: Que belas criaturas o Senhor pôs para mim na terra, para que eu o ame! e que delícias me reserva ele no céu!
Os mistérios da vida de Cristo no dia a dia
Quando virdes palha, manjedoura, gruta, lembrai-vos do Menino Jesus no estábulo de Belém.
Se é uma serra, um martelo, vigas, machado, pensai em Jesus trabalhando como simples operário na oficina de Nazaré.
Se são cordas, espinhos, cravos, uma peça de madeira, pensai nas dores e morte do nosso Redentor.
Enfim, vendo um altar, um cálice, uma casula, recordai-vos do grande amor que Jesus Cristo nos testemunhou, dando-se a nós no Sacramento da Eucaristia.
Os atos de amor e resignação
Multiplicai, o mais que puderdes, os atos de amor de Deus. Estes atos, dizia Santa Teresa, são a lenha que entretém nos nossos corações o fogo do santo amor.
Quando cairdes nalguma falta, não tardeis em vos humilhar, e procurai reerguer-vos por um ato de amor mais fervoroso.
Quando vos acontecer alguma coisa de desgosto, oferecei logo a vossa pena ao Senhor, e conformai-vos com a sua santa vontade; habituai-vos a repetir em todas as contrariedades: Deus o quer assim, assim o quero eu.
A oração contínua e a confiança em Deus
À imitação de Santa Rosa de Lima, repeti, o maior número de vezes que vos for possível, no decurso do dia, a oração: Senhor, vinde em meu auxílio (Sl 60,2), não me abandoneis à minha fraqueza.
Deus, cuja bondade é infinita, deseja em extremo nos acumular dos seus favores. Pedi, diz ele, e recebereis.
Oh! quanto é bom o Senhor e liberal para a alma que o busca com amor!
Viver já na terra como as almas do céu
Segundo Santa Teresa, as almas justas devem, na prática de amor, conformar-se nesta terra com as almas bem-aventuradas que já estão no céu.
Seja Deus neste mundo a vossa única felicidade, o único objeto dos vossos afetos, o único fim de todas as vossas ações e desejos, até que chegueis ao reino eterno, onde o vosso amor será em tudo perfeito e consumado.
Fonte: As mais belas orações de Santo Afonso de Ligório; EDITORA VOZES LIMITADA, PETRÓPOLIS, RJ; 1961)