O Tempo da Quaresma – O que é? Seus significados e como bem viver este tempo.

Redação VOTC

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Tudo aquilo que a Igreja Católica prega, em mais de dois mil anos de existência, possui uma razão de ser. Sempre há algo maior por vir dentro de conceitos que querem no conduzir a Santidade.
Entramos em uma época de suma importância no calendário Católico. Estávamos há pouco tempo no tempo Comum e agora partimos, como em um intervalo propício, para outro tempo: o tempo da Quaresma.
Neste período de quarenta dias que antecede a Pascoa, somos convidados a repensar as nossas vidas e nosso agir. Aqui entram em cena, em profundidade, a oração, a meditação contemplativa e as práticas piedosas, necessárias para receber a paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Na Quaresma contemplamos o Cristo Crucificado
Abaixo falaremos mais sobre este período Santo no qual todo Católico deve se esmerar em “lavar a sua casa interior” para que o mistério da Páscoa seja realmente sedimentado em nossos corações. Assim, façamos com que Jesus habite nossa nova casa, limpa e preparada para receber o Salvador.

O que você encontrará neste artigo:

  • O que é a Quaresma?
  • Dias de Luta
  • As práticas quaresmais: Tempo de Oração e Contemplação, Jejum e penitência.
  • O Papa Francisco e a Quaresma: “Tempo de ser uma pessoa amável”.

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O que é a Quaresma?

Ao período de quarenta dias que compreende a Quarta-Feira de Cinzas até a Páscoa, dá-se o nome de Quaresma (ou quadragesima). A antiguidade e Tradição da Igreja Católica trazem ao fiel este período como tempo propício e necessário de se fazerem penitências, Jejum, abstinência e a oração. É um tempo de profunda reflexão e de renovação dos ideais Cristãos deixados como legado por nosso Senhor, como mostram as leituras das missas.
O Catecismo da Igreja Católica nos traz na perícope n. 540, uma palavra que nos direciona neste período: União. “Todos os anos, pelos quarenta dias da Grande Quaresma, a Igreja une-se ao mistério de Jesus no deserto”. Neste mesmo sentido, acompanhamos o mistério da vida de Cristo em sua jornada no deserto em preparação para viver a Páscoa judaica.
Nos transportamos para o deserto, onde a solidão, o calor tórrido, e a desesperança oferecem um ambiente próprio para que o homem se esqueça de Deus. Ali está Cristo, em profunda oração, meditação, jejum e penitência, exemplo a ser seguido. Neste deserto, Cristo é tentado por Satanás que, melhor do que ninguém, conhece a palavra (os livros Sagrados) e a usa para tentar ludibriar o filho de Deus.
Jesus vence o tentador e esta é mensagem que fica como farol em um mar bravio: As tribulações são reais e a tentação nos visitará. Precisamos estar preparados para identificá-la e, como Cristo no deserto, repudiar o mal de forma serena, mas severa.
Dias de Luta.

Na Didaqué, “O Catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje” nos é ensinado que o Cristão sempre está em ordem de batalha, em frente a provas de fogo e que nosso testemunho deve ser fiel e verdadeiro, como comunidade:


“4 – 5 – 6: A comunidade vive na história em constante prova de fogo, porque deve enfrentar projetos contrários ao de Jesus. Muitos se apresentam semeando a injustiça, a desigualdade e o ódio, com todas as consequências que daí provêm. Por isso, o testemunho cristão se faz em meio a conflitos e lutas, e a comunidade deve estar sempre discernindo, para fazer a coisa certa no momento certo. [Didaqué – Catecismo dos Apóstolos]”


Já que estamos falando de conflitos e de provas, os dias que antecedem a Páscoa são dias em que a luta, o sofrimento e a paixão tomam importante lugar em nossas vidas. Pelo menos deveria ser assim pois Cristão sem luta, não pode ser considerado um verdadeiro discípulo de Cristo.
Assim como a caminhada de Jesus do deserto ao Calvário, experimentamos na Quaresma a vivência de emoções que devem nos levar à contemplação do amor que Cristo tem por nós. A magnitude de seu mistério deve nos fazer refletir sobre a necessidade de renovarmos nosso coração e nossas obras.
Vive-se o combate espiritual, que exige que nos abramos a condição de fazer morrer o homem velho, carregado de pecados e vícios e florescer novamente o homem novo, em Cristo.
Assim podemos redescobrir em nós, a esperança de nos colocarmos nas mãos de Deus para “progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa” [Missal Romano, I Domingo da Quaresma, oração coleta].
A Quaresma então nos orienta a fazer morrer o nosso pecado para ressuscitar com Cristo à verdadeira vida, como nos diz o apóstolo João: “Eu lhes asseguro que se o grão de trigo…morre dará fruto” [Jo 20,24].

Existe ainda um período que antecede a quaresma, que são a Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima. Preparamos um artigo sobre este periodo e você pode acessa-lo aqui.


As práticas quaresmais: Tempo de Oração e Contemplação, Jejum e penitência.

O Santo Magistério, aqui na pessoa do Papa Bento XVI, sempre nos traz os antídotos para que possamos enfrentar aqueles conflitos e provas que falamos pouco antes:


“No início da Quaresma, que constitui um caminho de treino espiritual mais intenso, a Liturgia propõe-nos três práticas penitenciais muito queridas à tradição bíblica e cristã: a oração, a esmola, o jejum – a fim de nos predispormos para celebrar melhor a Páscoa e deste modo fazer experiência do poder de Deus que, como ouviremos na Vigília pascal: “derrota o mal, lava as culpas, restitui a inocência aos pecadores, a alegria aos aflitos. Dissipa o ódio, domina a insensibilidade dos poderosos, promove a concórdia e a paz” [Mensagem do papa Bento XVI para a quaresma de 2009]


Vejamos um pouco sobre estes antídotos, os quais chamaremos de “práticas quaresmais”.


A Oração e a Contemplação


O Papa Francisco, em sua mensagem para a Quaresma de 2021 nos fala da grandeza da Oração neste período: “No recolhimento e oração silenciosa, a esperança é-nos dada como inspiração e luz interior, que ilumina desafios e opções da nossa missão; por isso mesmo, é fundamental recolher-se para rezar (cf. Mt 6, 6) e encontrar, no segredo, o Pai da ternura”.


A Oração é aquele momento em que é possível nos encontrarmos com Jesus. É aquele momento onde devemos nos colocar como filhos a sentir (e não somente ouvir) o que o pai nos quer dizer.
O Padre Paulo Ricardo de Azevedo nos ensina uma forma de oração ideal para este tempo:


“Uma forma de oração altamente recomendada por Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios Espirituais é a contemplação. Portanto, durante a Quaresma, é bom passar pelo menos algum tempo diante de uma imagem, pintura ou qualquer outra representação de Jesus pendente na Cruz por amor a você e a mim.”


Ele ainda nos recomenda formas frutíferas de oração e de contemplação, para atravessarmos este tempo com Santidade:

  1. Contemplar a Jesus na Cruz
  2. Rezar a Via-Sacra
  3. Meditar sobre as Sete Dores de Maria
  4. Meditar sobre as Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz
  5. Rezar o Salmo 22
  6. Participar da Santa Missa, memorial da paixão de Cristo
  7. Assistir a bons filmes que nos levem a um melhor conhecimento da vida de Cristo
  8. Fazer a Hora Santa
  9. Recitar os Mistérios Dolorosos do Santo Rosário

O Jejum


Nos dias atuais, a prática do jejum parece ter perdido o sentido quanto ao seu enorme valor espiritual. Hoje ela é mais indicada para fins terapêuticos do que espirituais, curiosamente.
O Papa Bento XVI nos diz que:

“Jejuar sem dúvida é bom para o bem-estar, mas para os crentes é em primeiro lugar uma “terapia” para curar tudo o que os impede de se conformarem com a vontade de Deus”. [Mensagem do papa Bento XVI para a quaresma de 2009]


Na Constituição apostólica Paenitemini, São Paulo VI exorta a necessidade de o Católico praticar o Jejum de forma a “não viver mais para si mesmo, mas para aquele que o amou e se entregou a si por ele, e… também a viver pelos irmãos”.


O Jejum é uma prática penitencial muito antiga e que nos auxilia a mortificar o nosso desejo carnal e a abrir o coração ao amor de Deus e do próximo. Assim nos orienta o decálogo, refletido no evangelho de Mateus (Mt 22, 34-40) quando nos traz mais um momento de ensinamento de Cristo.


Santo Agostinho, em sua obra Sermões, nos diz sobre o Jejum:


“Certamente é um suplício que me inflijo, mas para que Ele me perdoe; castigo-me por mim mesmo para que Ele me ajude, para aprazer aos seus olhos, para alcançar o agrado da sua doçura” (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708).


A tradição nos diz que o jejum é também uma prática frequente e recomendada pelos santos. São Pedro Crisólogo relata que “O jejum é a alma da oração e a misericórdia é a vida do jejum, portanto quem reza jejue. Aquele que jejua tenha misericórdia. Quem, ao pedir, deseja ser atendido, atenda quem a ele se dirige. Quem quer encontrar aberto em seu benefício o coração de Deus não feche o seu a quem o suplica” (Sermo 43; PL 52, 320.332).


E para concluir, o Papa Bento XVI nos diz:

“Privar-se do sustento material que alimenta o corpo facilita uma ulterior disposição para ouvir Cristo e para se alimentar da sua palavra de salvação. Com o jejum e com a oração permitimos que Ele venha saciar a fome mais profunda que vivemos no nosso íntimo: a fome e a sede de Deus.” [Mensagem do papa Bento XVI para a quaresma de 2009]

A Penitência

O Catecismo da Igreja católica sabiamente nos fala sobre a penitência neste tempo:


“Os tempos e os dias de penitência no decorrer do Ano Litúrgico (tempo da Quaresma, cada sexta-feira em memória da morte do Senhor) são momentos fortes da prática penitencial da Igreja (31). Estes tempos são particularmente apropriados para os exercícios espirituais, as liturgias penitenciais, as peregrinações em sinal de penitência, as privações voluntárias como o jejum e a esmola, a partilha fraterna (obras caritativas e missionárias)”.[CigC 1438]


A Penitência como forma de arrependimento pelo sangue derramado por Cristo pelo homem, demonstra que o amor não pode ser contido; que sentimos o mal que o pecado nos faz e que queremos estar com Jesus em seu sofrimento não deixando ele só.


Aqui também, pelo sofrimento, devemos buscar estar em comunhão às dores de Cristo para sentirmos na pele o que é o verdadeiro “sofrer por amor”.


São Leão Magno, em sua obra “Sermões”, especialmente no capítulo dos Sermões para a Quaresma, nos fala sobre o que a Penitência fiel e humilde acompanhada da confissão, causa no tentador:

“Ele se vê privado do direito de seu domínio, expulso dos corações daqueles que antes possuía; vê afastados dele, de um e de outro sexo, milhares de velhos, de jovens, de crianças; vê que nem o pecado pessoal, nem o pecado original não são obstáculos para ninguém, porque a justificação não é atribuída aos méritos, mas concedida apenas pela liberalidade da graça; vê até mesmo os que caíram, enganados pela armadilha de suas mentiras, lavarem-se nas lágrimas da penitência e abertas as portas da reconciliação pela chave apostólica serem admitidos aos remédios da reconciliação.
Ele sente, ainda, a aproximação do dia da paixão do Senhor: vai ser derrotado pelo poder desta cruz que, no Cristo, isento de todo débito em relação à morte foi a salvação do mundo e não a pena do pecado”. [São Leão Magno- Sermões]

A Caridade

Igualmente as outras práticas quaresmais, a caridade deve fazer parte ativa de nossas ações neste período, não somente nele, mas especialmente neste tempo de conversão. Não se trata apenas de “dar esmola” mas sim de colocar-se a serviço, seja com recursos financeiros mas muito mais com amor e atenção a quem precisa.


É tempo para viver a caridade de Cristo, como ele nos ensina em sua parábola do bom samaritano. Nela o Crucificado nos exorta a refletirmos no amor sem fronteiras e preconceitos que é colocado em prática: aquele desprezado pelos seus, é acolhido pelo estranho, nela se mostra o verdadeiro amor pelo próximo.


“É o amor de Deus infundido em nossos corações que deve inspirar e transformar o nosso ser e o nosso agir. Que o cristão não se iluda de poder conseguir o verdadeiro bem dos irmãos, se não vive a caridade de Cristo. Mesmo se conseguisse modificar importantes factores sociais ou políticos negativos, todo o resultado seria efémero sem a caridade. A mesma possibilidade de dar-se pessoalmente aos outros é um dom e brota da graça de Deus. Como ensina S. Paulo, «Deus é que produz em nós o querer e o operar segundo o seu beneplácito» (Fil 2,13).”


Com estas palavras São Joao Paulo II em sua “Mensagem para a quaresma de 2003” nos fala da caridade como inspiração para a verdadeira transformação. E como não se transformar em uma época em que estamos muito perto de Jesus, de seus sofrimentos e paixão?

O Papa Francisco e a Quaresma: “Tempo de ser uma pessoa amável”.

Por fim, deixamos aqui dois trechos da mensagem de nosso Papa Francisco sobre a Quaresma de 2023 para que possamos refletir com humildade em nossa missão de Cristãos, neste período e possamos ir além de simplesmente atender obrigações. A busca da santidade em direção à pátria celeste deve ser nosso ideal.

“Na Quaresma, estejamos mais atentos a “dizer palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam” (FT, 223).

Às vezes, para dar esperança, basta ser “uma pessoa amável, que deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, possibilitar um espaço de escuta no meio de tanta indiferença” (FT, 224)”.


“Viver uma Quaresma com esperança significa sentir que, em Jesus Cristo, somos testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf. Ap 21, 1-6), “sempre dispostos a dar a razão da [nossa] esperança a todo aquele que [a] peça” (1 Ped 3, 15): a razão é Cristo, que dá a sua vida na cruz e Deus ressuscita ao terceiro dia.”

Elevemos nosso pensamento a Deus para que esta quaresma seja para nós um tempo maravilhoso de conversão e que possamos tentar retribuir ao nosso Salvador, um pouco daquilo que ele enormemente nos deu pregado no madeiro da Cruz: amor, sinceridade e, principalmente, esperança.

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Fontes

PAULO VI, Papa. Constitución Apostólica Paenitemini de Su Santidad Pablo VI. (Espanhol) – (Acessado em 21/02/2023)

PAULO II, João. Mensagem De Sua Santidade O Papa João Paulo II Para A Quaresma De 2003 – (Acessado em 21/02/2023)

BENTO XVI, Papa. Mensagem do Papa Bento XVI para a Quaresma de 2009 – (Acessado em 20/02/2023)

FRANCISCO, Papa. Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2023 – (Acessado em 21/02/2023)

Opus Dei. Quaresma: tempo para renovar fé, esperança e caridade – (Acessado em 21/02/2023)

Opus Dei. O Início da Quaresma: (Acessado em 21/02/2023)

AGOSTINHO, Santo. Sermões. A utilidade do Jejum – Santo Agostinho. (Sermo 400, 3, 3: PL 40, 708)
CRISÓLOGO, Pedro. Sermões – (Sermo 43; PL 52, 320.332).
MAGNO, Leão. Sermões. Décimo Primeiro Sermão Sobre A Quaresma. Vol. 6 (p. 84). Paulus Editora. Edição do Kindle.
DIDAQUÉ. (O Catecismo dos primeiros Cristãos para as comunidades de hoje). Paulus Editora. Edição do Kindle. Cap. XVI – 4-5-6.
RICARDO, Padre Paulo. Dez sugestões de oração para você viver bem a quaresma. Acessado em 21/02/2023

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