Uma virtude para cada mês do ano segundo Santo Afonso Maria de Ligório

Redação VOTC

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Viver bem o ano não depende apenas de bons propósitos, mas de um caminho espiritual claro e constante. Santo Afonso de Ligório, grande doutor da Igreja, propõe um verdadeiro itinerário de santidade, indicando uma virtude a ser cultivada em cada mês do ano.

Ao meditar e praticar essas virtudes mês a mês, a alma aprende a ordenar seus afetos, fortalecer a fé e caminhar com segurança rumo a Deus. Este artigo é um convite: não apenas ler, mas assumir um propósito espiritual concreto para cada mês do ano, deixando-se formar pela sabedoria deste mestre da vida interior.

As virtudes de cada mês segundo Santo Afonso:

  • Janeiro – A fé
  • Fevereiro – A esperança
  • Março – O amor de Deus
  • Abril – A caridade para com o próximo
  • Maio – O desapego
  • Junho – A pureza
  • Julho – A obediência
  • Agosto – A humildade
  • Setembro – A mortificação
  • Outubro – O recolhimento
  • Novembro – O amor da oração
  • Dezembro – A paciência

Janeiro – A fé

Santa Teresa dizia que todos os pecados nascem de falta de fé. 

A Santa tinha razão, pois é impossível viver um separado de Deus, quando tem continuamente diante dos olhos as verdades da fé, grandeza de Deus, amor que ele nos tem, benefícios de que nos há cumulado, e especialmente a obra da Redenção, Paixão de Jesus Cristo e o dom do Santíssimo Sacramento: o mesmo acontece quando se medita muitas vezes na morte, no juízo , no inferno, na eternidade. Pelo que, importa muito avivar cada um em si com frequência o espírito de fé, lembrando-se das máximas eternas. 

Assim fizeram os santos, e por isso alcançaram a coroa de glória.

 

Fevereiro – A esperança

A nossa esperança de conseguir a salvação e os meios necessários para isto deve ser certa da parte de Deus. 

Os fundamentos desta certeza são o poder, misericórdia e fidelidade de Deus: mas destes três motivos de confiança, o mais firme e certo é a fidelidade infalível de Deus na promessa que nos fez, por causa dos méritos de Jesus Cristo, de nos salvar e conceder-nos as graças necessárias à salvação… 

Todavia esta promessa é condicional, pois exige, da nossa parte, que correspondamos à graça e oremos. 

Aquele que ora com certeza se salva.

 

Março – O amor de Deus

Para obter o grande tesouro do amor a Jesus Cristo, é necessário: 

  1. Desejá-lo ardentemente; 
  2. Pedi-lo muitas vezes; 
  3. Dar-lhe lugar, expelindo do nosso coração todo o apetite desordenado; 
  4. Fazer frequentes atos de amor; 
  5. Meditar assiduamente na Paixão de Jesus Cristo. 

A caridade é a rainha das virtudes, as quais a seguem onde quer que entre para lhe formarem vistosa corte.

 

Abril – A caridade para com o próximo

Aquele que ama a Deus ama também o seu próximo. E quem não ama o próximo não ama a Deus. 

Para praticar a virtude da caridade, é preciso: 

  1. Amar o próximo como a si mesmo do fundo do coração; 
  2. Abster-se de suspeitar ou julgar mal dele sem .causa justa; 
  3. Evitar a maledicência; 
  4. Ter cautela em não dizer a outrem o mal que dele falaram; 
  5. Evitar ofender o próximo; 
  6. Fugir de rixas; 
  7. Falar com doçura a todos, ainda aos inferiores; 
  8. Socorrer o próximo, quando pode; 
  9. Procurar salvar as almas; 
  10. Assistir os enfermos, principalmente se são pobres; 
  11. Perdoar e fazer bem aos inimigos; 
  12. Orar pelos pecadores e pelas almas do purgatório.

 

Maio – O desapego

Pessoas há que querem santificar-se, mas a seu modo; querem amar a Jesus Cristo, mas seguindo as suas inclinações, isto é, sem renunciar aos seus divertimentos, à vaidade dos trajes, às delícias da mesa; amam a Deus, mas se não conseguem tal emprego, vivem inquietas: se lhes tocam na reputação, irritam-se; se não saram de tal doença, perdem a paciência; amam a Deus, mas não se desapegam das riquezas, honras do mundo, vaidade de passar por nobres, sábias, melhores do que as outras. 

Essas pessoas fazem oração, frequentam os Sacramentos, mas, como têm o coração cheio de afeições terrenas, logram pouco fruto das suas devoções. 

O Senhor nem sequer lhes fala, porque vê que seria em vão.

 

Junho – A pureza

Fugi da ociosidade, más companhias, conversações livres, e ocasiões em que a pureza corre perigo. Recatai bem os olhos, para não verem objetos perigosos. 

Quem não foge às más ocasiões voluntárias, particularmente às em que costuma sucumbir, é moralmente impossível se mantenha na graça de Deus. 

Há dois remédios contra as tentações, a saber: resignação e oração. 

A resignação, porque, embora as tentações não venham de Deus, o Senhor contudo as permite para o nosso bem. Estejamos atentos pois, para não nos impacientarmos por causa das tentações, por mais incômodas que sejam; submetamo-nos à vontade de Deus, que as permite, e procuremos repeli-las por meio da oração, que é a mais forte e segura de todas as armas para vencer os nossos inimigos. 

Os maus pensamentos involuntários, por vergonhosos e ímpios que sejam, não são pecados; só o consentimento os torna tais. Invoquemos os santíssimos nomes de Jesus e Maria, e nunca seremos vencidos. 

No momento da tentação, é bom renovar o firme propósito de antes morrer que ofender a Deus, fazer muitas vezes o sinal da cruz com água benta e manifestar a tentação ao confessor: mas, de todos os remédios o mais necessário é a oração, o recurso a Jesus e Maria para obter a força de resistir.

 

Julho – A obediência

Se poucas almas há que se dão inteiramente a Deus, é porque poucas são as que se submetem inteiramente à obediência. 

Pessoas há tão aferradas à própria vontade, que a mesmíssima coisa que, fora da obediência, lhes seria de gosto para ser executada, amarga e difícil se lhes faz quando exigida por obediência, é unicamente por esta causa; tais pessoas tomam prazer somente com executar o que lhes dita a vontade própria. 

Este não é o proceder dos santos, os quais só ficam tranquilos quando obedecem. 

São Filipe Néri dizia: “Os que desejam progredir no caminho de Deus devem submeter-se a um confessor instruído, e dar-lhe obediência como ao próprio Deus; quem procede assim, pode estar certo de que não dará a Deus contas do que faz”. 

Deve-se ter confiança no confessor, ajuntava o Santo, e crer que Deus não lhe permitirá se engane: não existe meio mais seguro para um desfazer os artifícios do inimigo que seguir no bem a vontade de outrem; ao contrário nada mais perigoso do que querer dirigir-se pelos seus conselhos pessoais. 

 

Agosto – A humildade

Sem a humildade não se pode agradar a Deus: Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes (Tg4,6). 

A humildade de espírito consiste em nos termos por miseráveis como realmente o somos. 

Na prática: 

  1. Desconfiemos sempre de nós mesmos. 
  2. Não nos gloriemos de coisa alguma; evitemos até falar a nosso respeito. 
  3. Não nos indignamos contra nós mesmos depois duma falta, mas levantemo-nos, contando com o socorro de Deus para não cairmos mais. 
  4. Sejamos compassivos para as quedas dos outros. 
  5. Olhemo-nos como os maiores pecadores do mundo, pois tantas graças havemos recebido e tão pouco nos havemos aproveitado delas. 

A humildade de coração exige que folguemos de ser desprezados pelos outros. 

Na prática: 

Recebamos tranquilamente as admoestações, e agradeçamos a quem nos corrige. 

Quando recebemos alguma afronta, suportemo-la com paciência, e procuremos amar ainda mais aquele que nos despreza. Que de desprezos não padeceu Jesus por nós?

 

Setembro – A mortificação

Pela mortificação interior nos aplicamos a domar as nossas paixões, principalmente a que mais predomina em nós. Não vencer uma paixão dominante é pôr-se em grande perigo de se perder. 

Pela mortificação exterior negamos aos sentidos as satisfações que desejam. 

É necessário portanto mortificar: 

  1. Os olhos, abstendo-nos de ver objetos perigosos. 
  2. A língua, fugindo das maledicências, palavras injuriosas ou impuras. 
  3. A boca, evitando todo o excesso no comer e beber, e praticando até algum jejum e abstinência. 
  4. O ouvido, negando-nos a dar ouvidos a discursos que ferem a modéstia ou a caridade. 
  5. O tato, usando de precaução quer conosco quer nas relações com outros.

 

Outubro – O recolhimento

Muitas pessoas há, que não podem, por mais que o queiram, recolher-se à solidão e separar-se das criaturas para se ocuparem só com Deus; cumpre, porém, observar que pode a gente gozar dos benefícios da solidão do coração em outros lugares que não sejam desertos e grutas. 

Aqueles mesmos que se veem na necessidade de viver no mundo podem sempre conservar, ainda no meio dos caminhos, praças públicas e ocupações, a solidão do coração e a união com Deus, uma vez que tragam o coração livre de mundanos apegos. 

Nenhuma ocupação impede a solidão do coração, uma vez que tenha por objeto o cumprimento da vontade de Deus.

 

Novembro – O amor da oração

Importa orar sempre (Lc18,1). Pedi e recebereis. 

Em verdade, em verdade vos digo, se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome ele vo-la. dará (Jo16,23-24). 

É certo que quem ora se salva; é certo que quem não ora se condena. 

Todos os que se salvaram salvaram-se pela oração. Todos os que se condenaram condenaram-se por se terem descuidado de orar; e a causa maior do seu desespero no inferno será ver que podiam facilmente salvar-se pela oração, e agora não há mais, tempo para fazê-lo. 

 

Dezembro – A paciência

Estamos na terra para fazermos penitência e merecermos; não é ela, portanto, lugar de repouso, mas de trabalhos e sofrimentos. 

As dores, adversidades e outras tribulações hão de ser as mais belas jóias da nossa coroa no paraíso. 

Pratiquemos a paciência: 

  1. Quando a morte nos arrebata os parentes ou amigos; 
  2. Na pobreza; 
  3. Nos desprezos e perseguições; 
  4. Nas desolações espirituais;
  5. Nas tentações; 
  6. Nas doenças. 

A resignação na morte, para fazer a vontade de Deus, é bastante para assegurar a nossa salvação eterna.

 

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